A mulher representada na constelação de Virgem é a deusa grega Astrea ou Astreia, filha de Zeus e Têmis, a antiga titânide da justiça. Astreia é uma deusa menor da justiça, atributo herdado de sua mãe, e convivia harmonicamente com os homens, ensinando-os a caçar e a plantar durante a maravilhosa Idade de Ouro.
Porém, depois dessa era, os humanos começaram a guerrear e Astreia, decepcionada e furiosa, os abandonou. Ela virou a constelação de Virgem por seu pai, Zeus.
Isso tem muito a ver com o nosso lado virginiano. Virgem é um signo que preza por fazer tudo de forma correta, direita, de acordo com o protocolo, eficazmente, sem erros, sem falhas. Nosso lado virginiano é organizado e disciplinado. Quando ele vê bagunça, sente vontade de ir embora. A justiça de Astreia representa a organização.
O signo de Virgem não tem a ver com virgindade sexual; ele fala de pureza sim, mas de uma pureza relacionada à ordem perfeita não maculada pelo caos. Os fenômenos naturais são exemplos de "ordens perfeitas" que podem ser "maculadas" pelo caos das ações humanas: a fisiologia do corpo, por exemplo, é muito adequada para a nossa sobrevivência e bem estar, mas insistimos em prejudicá-la com maus hábitos. Os ecossistemas estão perfeitamente equilibrados, mas nós vamos lá e destruímos tudo.
Essa ordem natural das coisas é o que faz o signo de Virgem reger a saúde, a higiene, a limpeza e a organização, pois todos esses temas visam manter o funcionamento correto do corpo e do ambiente.
Mas vamos além. Embora eu tenha dito que a pureza do signo de Virgem não se refere à castidade, é muito comum que figuras mitológicas ligadas ao signo integrem histórias referentes à virgindade sexual, à perda forçada da virgindade e à prostituição. Esses temas são analogias aos comportamentos adotados pelo aspecto virginiano do nosso ser.
No primeiro caso, há várias deusas e divindades que optam pela virgindade, como Ártemis, Héstia e a própria Virgem Maria. Nos seres humanos, a virgem representa uma possível forma de manifestação do lado virginiano, bastante comum, que é a de manter a organização própria protegida da desorganização dos outros. Aqueles que expressam a faceta virginiana dessa maneira podem ficar constantemente irritados com qualquer bagunça ou sujeira, tornando-se chatos e hipocondríacos, ou podem se isolar de tudo aquilo que ameace o seu senso de ordem. No corpo humano, essa atitude é igual a da pessoa que evita ao máximo qualquer exposição à microorganismos patogênicos. Na natureza, esse lado virginiano representa a própria natureza virgem, inexplorada pelo homem, que segue o seu próprio curso.
No segundo caso, temos como exemplo a deusa Perséfone, que foi raptada por Hades, o deus do submundo, e que foi obrigada a se casar com ele. Na vida real esse arquétipo mostra que mesmo que o nosso lado virginiano procure manter a ordem e a organização a qualquer custo, em algum momento, inevitavelmente, algo ou alguém irá destruir essa ordenação. Muitas vezes sentimos isso como se alguém estivesse nos violando sem ter o direito de fazer isso, ou violando uma ordem que imaginamos ser indispensável para a nossa existência e para o meio ao redor. No corpo, sentimos isso como a doença causada pelos microorganismos patogênicos. Na natureza, essa violação é a exploração humana do meio ambiente sem se importar com as consequências futuras para o equilíbrio ecológico e a sobrevivência da própria humanidade. Existem várias deusas que representam a natureza enraivecida pelas ações humanas.
No terceiro caso, temos as deusas e divindades meretrizes ou sexualmente libertinas que, por livre e espontânea vontade, escolhiam os homens com quem queriam ter relações sexuais. Porém, ao contrário da maioria dos casos de prostituição em nosso mundo, as meretrizes realizavam essas práticas por opção, e até mesmo como algo sagrado. É como se elas tivessem uma grande confiança em si mesmas e se bastassem ao ponto de poder dormir com qualquer homem sem haver o risco de se subordinarem a eles ou de perderem a sua própria individualidade. Esse é o caso de Afrodite e Astarte.
Acredito que essa seja a melhor forma de lidar com nosso lado virginiano: sabermos como queremos que as coisas sejam organizadas, ao mesmo tempo que nos abrimos para outras formas de organização (e desorganização), sem abrir mão de quem somos, mas também sem nos fecharmos aos outros. O encontro desses dois mundos geram resultados surpreendentes que podem ser muito benéficos. Mas, para isso, precisamos confiar na vida e em nós mesmos.
O signo e a constelação de Virgem muitas vezes são representados por essas figuras femininas, segurando um ramo de trigo, simbolizando a separação do joio e do trigo e a incrível habilidade virginiana para perceber detalhes. Mas o trigo também simboliza as plantações, que são fruto da capacidade do homem de entender e interagir com a ordem da natureza sem necessariamente prejudicá-la. Claro que hoje em dia a agricultura é um dos principais fatores de destruição do meio ambiente, mas isso se deve ao nosso modo de produção, e não à agricultura em si, que pode ser realizada com respeito à natureza, como a permacultura. No corpo, podemos observar como a medicina consegue intervir nele de forma benéfica, por meio, por exemplo, das vacinas, das cirurgias e dos tratamentos.
Por fim, existe outra maneira de vivenciarmos o lado virginiano de nosso seres, que infelizmente também é muito comum: a subordinação a organizações externas, preexistentes, que não tem nada a ver com a nossa essência e que são mais fortes do que nós. Isso é problemático, pois o lado virginiano precisa seguir a sua própria organização interna, mas acaba tendo que usar seus dons de organização, análise e eficácia para coisas com as quais ele não se sente à vontade. No corpo, temos o exemplo das cirurgias plásticas e do uso de anabolizantes e outras substâncias que fazem mal à saúde, em nome, por exemplo, de um padrão de beleza socialmente imposto ou de um desempenho que desrespeita as regras do próprio corpo. Na natureza, vemos como as demandas do mercado são capazes de atropelar quaisquer legislações ambientais. Por isso, cabe a cada um procurar se libertar das ordens externas que o prejudicam e ter a coragem de procurar algo que satisfaça o seu senso próprio de organização, de trabalho e de realização de tarefas.


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